Su & Je

As aventuras de uma família de imigrantes vivendo no Canadá

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Rebecca na escolinha

Posted by Jeison em 12 de novembro de 2010

Bom, completou-se duas semanas que nossa filha está indo numa «garderie» (a escolinha ou creche daqui), e alguns que estão próximos sabem outros não, mas foi uma quinzena bem difícil para nos três.

Já fazia um bom tempo que procurávamos uma garderie para a Rebecca, por N motivos, entre eles para ela realmente começar a aprender o francês e se socializar, para liberar a Susana para poder estudar, trabalhar e fazer outras coisas… Mas aqui, conseguir vaga em garderie é algo impossível, ok, há vagas em meio familiar, mas isso é uma loteria e não quero colocar nossa filha nisso nem a pau…

Meio familiar, é uma familia que para poder ter uma renda extra, já que a esposa não trabalha, pega um dos cômodos da casa e transforma em um local para eles cuidarem das crianças, parece que por lei cada adulto pode cuidar de no máximo 6 crianças. Algumas dessas até prosperam um pouco e contratam funcionários para poder ter mais crianças. Mas já escutei falar muito mal de algumas (muitas) e bem de outras (poucas), então preferi não arriscar com a Rebecca, ficamos mesmo procurando as garderies subsidiadas pelo governo, onde você para somente $7.00 por dia, isso mesmo $140.00 dolares por mês, de graça mesmo não tem !!! Ou garderie privadas, onde o custo varia normalmente a partir de $25.00 por dia. Mas mesmo nas privadas, perto de casa não achamos nada, nada mesmo, todas lotadas, quando fiquei sabendo de uma nova garderie que abriria numa cidade vizinha aqui* (nota no rodapé), e fomos la conhecer, a garderie estava em obras, era uma casa de três andares usada como escola de dança e academia, que estava toda em reforma ainda, a Susana não botou muita fé que estaria pronta até dia 01/11, essa visita fizemos em 30/09, faltavam apenas 30 dias e não tinha nem piso direito, mas eu acreditei na lábia de um dos donos, jovem, com alargadores na orelha, mas que falava muito bem, um vendedor nato ! Prometeu mil coisas, desde aula de circo, karate, passando por muro de escalada e introdução musical, bom, estamos falando de crianças de 2 a 5 anos de idade, achei tudo muito ótimo, não tínhamos nem um quinto disto no Brasil, vamos pagar pra ver… E pagar caro, essa nos sai a $37.00 por dia !!! Nem façam as contas para nao tomar susto !! Mas a Rebecca e a Susana não podiam mais ficar em casa. Em teoria, vamos receber uma parte desse valor, parece que até um teto de $25.00, então teoricamente, pagamos $12.00 por dia para nossa filha ir pra escola. Digo em teoria, pois ainda não sei como isso tudo funciona direito, ainda não vimos a cor de nenhum reembolso, estamos pagando 100% ainda. Parece que existem duas formas de reembolso, como a Susana foi finalmente chamada para fazer a francisação (outra novela pra contar depois) ela tem direito a esse reembolso, pois como ninguém pode ficar em casa com a Rebecca, além da bolsa de estudos eles vão acrescentar esse valor no cheque dela, mas ainda falta eu conseguir no trabalho um atestado que eu realmente trabalho, eu entreguei um modelo para o meu coordenador, que passou para o diretor, que passou pro RH, que nem sei mas onde esta. Parece que por ser um órgão publico não é qualquer um que pode assinar um documento como este. Feito isso, temos que devolver tudo isso no Cégep (escola da Susana – Collège d’enseignement général et professionnel (http://www.cegep-ste-foy.qc.ca)) que eles mesmo se encarregam de fazer este reembolso chegar.

Parece que existe um outro reembolso, que na verdade é uma espécie de restituição adiantada do imposto de renda, onde também vem uma parte desse dinheiro, mas pelo que entendi, é um ou outro, preciso conversar com amigos que estão a mais tempo aqui e que passaram por alguma situacao parecida.

Bom, esquecendo as contas, vamos falar da escolinha mesmo, dia 31/10 fomos la com a Rebecca, pois eles marcaram uma acolhida e apresentação dos professores de cada turma, ficamos bem impressionados com o prédio pronto, a escola ficou linda, tudo funcionando e melhor do que eu imaginei quando o Dan (um dos donos) apresentou a “idéia” da escola para nos. Estava cheio de gente, a Rebecca brincou, mas ainda bem tímida com as outras crianças, até ficou um hora inteira só com a professora enquanto os pais acompanhavam umas explicações do dono da escola. Pensei que ia ser moleza então. Nos dois primeiros dias, até foi, ela estava super empolgada com a idéia de ir pra escolinha, voltou bem contente, animada, etc… Mas ja no terceiro dia, não queria mais ir, chorava, não entendia porque não podia ficar em casa, teve que ficar nos braços da professora porque não me deixava ir embora. Na quinta (4° dia) foi o pior dia pra mim, ela começou a chorar e implorar para não ir desde o momento que acordou, foi de casa até a garderie chorando e reclamando, lá nem deixou eu troca-la direito, pois ela sabia que esses eram os passos antes de eu ir embora, tirar sapato, etc… A professora teve que segura-la com força pra eu poder sair, a Rebecca estava roxa de tanto gritar e chorar pra eu não deixa-la la. Entrei no carro e desabei, não consegui sair de la, fiquei chorando mesmo uns 15 minutos, liguei pra Susana, e só depois disso que pude ir trabalhar, digo, ir pro trabalho, porque trabalhar direito mesmo, eu não pude naquele dia. Quando peguei ela, ela chorou muito ao me ver, disse que eu demorei, etc… Fui com ela no shopping, e comprei um pequeno Lego pra ela, pra idade dela, chegou em casa, brincamos bastante, ela adorou. Conversamos bastante com ela, todos os dias, para ter certeza que a escolinha é tão boa quanto aparenta, e ela diz que são todos pacientes com ela, que a professora é boazinha, os amiguinhos, todo mundo é bonzinho com ela, perguntamos se ela come a comida, etc… Acredito que essa é a fase da adaptação, ela acabou de passar seis meses com o pai e a mãe grudados 24 horas por dia com ela, e de repente, ela passa a maior parte do dia dela com estranhos, que não falam a língua dela, e que ela não entende o que eles estão dizendo. Deve estar sendo horrível pra ela. Na sexta-feira (5° dia), ela até sonhou com a escolinha, porque antes dela acordar, já escutei ela resmungando falando que nao quer ir na escola, sonhando… Com isso ja comecei a ficar mal denovo, acordamos e no carro, eu prometi a ela que se ela ficasse boazinha eu compraria um Lego bem grande pra ela. Na escola, na hora de troca-la ela tava chorando, nao queria ficar, mas eu reforcei a promessa e ela engolia o choro, pensando no brinquedo. Entrou sozinha na sala, chorando, entrou e sentou num canto, nem foi nos brinquedos… Fui embora, sabendo que teria que cumprir a promessa, e assim foi feito, a Susana chegou em casa e quebrou o pau comigo, que eu nao deveria ter feito isso, que alem de gastar dinheiro, estava acostumando ela mal… Eu sei, sou de acordo também, mas o que eu poderia fazer, eu tinha passado dois dias horriveis também. E a Su por tabela também. O final de semana passamos todos bem proximos e aproveitamos bastante. Conversamos mais com ela, sobre a escolinha, explicamos que todas as crianças tem que ir na escolinha, até pedimos para o Ricardinho (amiguinho dela, filho de um casal amigo e vizinhos nosso, entre nos adultos até brincamos que é o namoradinho dela de tanto que os dois se gostam) que é um ano mais velho que ela para explicar pra ela que ele também ter que ir na escolinha e que ele gosta… Bom, a segunda e a terça foi meio complicado, nem tanto quanto na semana passada, mas ela ficou mais conformada eu diria. Ela chora agora só quando vou busca-la, ela diz que eu demorei muito, ve se pode !!!! Pior que pro nosso azar, esse final de semana mudou o horário aqui, entramos no horário de inverno, e com isso começa a escurecer as 16:30 e as 17:00 já esta bem escuro, e a Rebecca não vai entender isso tao assim cedo, na cabeça dela, eu tenho ido buscar ela a noite !!! Ela chora de perder a fala e quando recupera só diz: Porque demorou tanto ? Já esta de noite !!!!  Porque ??  E pior que o mais cedo que eu consigo sair do trabalho é umas 15:30, mas para isso, teria que entrar as 07:30 da manha, mas esse é o horário que temos saido de casa, então só chego na garderie entre 16:00, 16:30, quando já esta começando a escurecer, vai explicar pra uma criança que 4 da tarde não é noite, sendo que ela olha pro céu e vê noite !!!  ai ai ai…

Ontem aconteceu algo muuuuuuuuuuuito legal, eu fiquei chocado. Temos uma vizinha que é meio tan tan (lélé da cuca mesmo), mas boazinha, mala, mas tem bom coração. Bom, ela apareceu em casa, e eu abri a porta, ela tava com uma boneca na mão, e disse que tinha um cadeau (presente) para a Rebecca, e eu chamei a Rebecca, e ela começou a falar com a Rebecca, eu não sei porque, afinal de contas, ela sabia que a Rebecca não fala nada de francês, mas eu deixei ela falar, é meio doida, mas se isso faz bem pra ela, que mal tem… (tudo isso na porta de casa) Mas não é que teve uma hora que ela disse para a Rebecca lavar a mão para não sujar a boneca (tudo em francês, eu nem sei como dizer isso, eu entendi mas não sei reproduzir), e na mesma hora que ela disse isso, a Rebecca saiu correndo, foi no banheiro, lavou a mão e voltou !!!  Eu fiquei chocado !!! Eu perguntei pra Rebecca se ela tinha entendido o que a senhora falou, afinal de contas, é uma pessoa diferente, tem um sotaque diferente e forte, mesmo que a professora use essa frase na escolinha (lavar as mãos), a professora fala devagar, com calma, e faz parte da rotina da Rebecca, que ela nem se acostumou ainda, mas ela sabe as horas que tem que lavas as mãos na escolinha, mas em casa, a Rebecca nao estava esperando essa frase, e a ela também não é de obedecer assim tão instantaneamente, ainda mais se ela queria pegar a boneca, mas ela obedeceu e disse que entendeu sim o que ela falou !!! WOW !!!

Esses dias ela chegou pra mim e disse: E cachorro, como é que é ?? É chien !  Depois de me recuperar do susto, disse: muito bem, é chien sim, parabéns !!!

Nos brincamos assim com ela: Como é “tal coisa” em francês ? E ela responde: Como que é ?, é XXXXX !!  Quando ela não sabe, ela fica quieta. Mas o vocabulário dela era limitado a  água, copo, copo d’água, xixi, cocô e vermelho. Esses dias já percebi que posso acrescentar a essa lista Cavalo e Cachorro. E já vi que tem coisas que ela não consegue responder, mas que ela entende o que é. Muito loco essa evolução toda… E isso que só fazem 8 dias com hoje que ela vai para a escola… Tô meio besta ainda…

Bom, é isso, vou finalizar por aqui esse post, estou muito contente em ver que era (é) uma fase de adaptação dela, a cada dia que passa ela esta melhor, mais adaptada, converso com a professora dela quase todo dia, e ela sempre (depois daqueles dias iniciais terríveis) me dá bom feedback, dizendo que ela já interage mais, já conversa pequenas coisas em francês, ou em português mesmo com os amiguinhos, esta cada dia mais participativa., muito bom… Logo logo ela estará dando aulas para a gente.

Abraços a todos, até a próxima

* Quebec é composta por diversas cidades que se fundiram em 2006. A Rebecca estuda em Sainte-Emille, mas aqui é tudo bem perto (para quem veio de SP), e fica apenas a 10 minutos do meu trabalho que é em Quebec no bairro de Charlesbourg. Ao todo, entre sair de casa, deixar a Susana no Cégep, ir até Ste-Emille deixar a Rebecca, entrar na escolinha pra ajudar ela a tirar a bota e as roupas mais pesadas de frio e colocar o calçado e “interior” (tenis) pendurar mochila e entrar na sala dela, depois ir pro trabalho, tudo isso da cerca de 1 hora exata.  O google maps calculou 36 minutos num percurso de 25,2 kms, mas sem as paradas. Até que não é nada assim tão absurdo, pensando que eu levava quase isso em SP, detalhe: de moto, num percurso de 12,5 kms (menos da metade!!). Eu estou achando tudo isso bem tranquilo por enquanto, quando a neve chegar aqui de verdade eu conto se ainda tah tranquilo.

 

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